Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

19 novembro, 2015

Ela é uma coleccionadora de homens



Diz-me devagar poemas que eu não conheço. Diz-me, quase em silêncio, poemas que falam de outras mulheres, de outras paragens. Diz-me, devagar, palavras que eu quase não ouço, diz-me, fala-me de céus, de paisagens, de mares, de espelhos, diz-me. 

Vem, chega-te a mim, diz-me rimas rimadas, rimas brancas, fala-me de amores, tristezas, diz-me de perdas, de recomeços. Diz-me.

Encosta-te à parede, encosta-te a uma árvore, à sombra de um veleiro, ou encosta-te a mim. Gosto de te ver assim enquanto falas, o corpo apoiado para que um sopro não te faça vacilar. E conta-me de caravelas, de guerras, de tempos perdidos no tempo, de tecedeiras de telas infinitas, de loucuras, de corações despedaçados, de paredes caiadas, banhadas de luz. Conta-me de lágrimas, de abraços, de mãos que se encontram, de mãos que temem perder-se.

E não te espantes que eu nada diga, que eu apenas sorria e pense que não existes. Dir-te-ei talvez que não é possível que assim apareças junto a mim, dizendo-me poemas inesperados, palavras trazidas da noite. Não queiras que eu te fale de palavras que beijam, de palavras que atravessam os longes e os acasos felizes. Não. Não consigo. Fala tu, apenas. Fala-me da beira-mar, fala-me do mar, do vento, do que quiseres. Fala-me devagar para que as tuas palavras fiquem gravadas na minha pele, cravadas no meu coração.

Mas não me olhes nos olhos. E não me perguntes se és o único. Não peças que te confesse que do outro lado do espelho está outro, igual a ti, que diz o que tu dizes, que quer o que tu queres, que sonha os teus sonhos. Não me perguntes. Não digas nada. Conta-me apenas, em silêncio, com palavras transparentes, que me queres. Estende o teu amor em palavras pelo chão, pelo céu, pelas águas azuis do rio, pela espuma do mar, e deixa que a luz que delas se desprende me guiem neste labirinto em que nos perdemos.




Ela é uma coleccionadora de homens.

Tão eficaz como o colector de impostos e o seu laço
a perseguir o gado de qualquer pobre lavrador.
Prendeu-me com o olhar,
anestesiou-me com o seu perfume,
por fim enlaçou-me com os seus longos e escuros cabelos.

Assim me marcou ela
com o seu ferrete de fogo


[Frases delicadas, II, in Poemas de amor do antigo Egipto, tradução de Hélder Moura Pereira]

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As fotografias foram feitas no Ginjal
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