Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

07 novembro, 2016

Que ninguém chame pelo teu nome




Na noite silenciosa, na beira do rio, junto à rebentação do mar, no lugar mais secreto dos meus pensamentos, em todos os lugares, eu escondo que é pelo teu nome que eu chamo.

Escondo de mim que quero que me venhas visitar, que me tragas secretas palavras, que me tragas poemas desconhecidos, que me ensines uma gramática inventada, que me contes de sereias, de deuses, de grutas, de montanhas, de guerras longínquas, de amores loucos. Escondo, escondo, silencio. 

Mas se queres saber, escuta. Escuta o que sempre esconderei de ti: quero esquecer o teu nome, quero adormecer dentro de mim o chamamento do teu nome, quero esquecer que me trazes presa a ti, a ti que não sei quem és.

Mas não te importes com os meus medos. Vem na mesma. Traz de longe as palavras que me encantam e embalam nos seus intangíveis abraços. Mas que mais ninguém saiba porque só tu e eu podemos saber como as palavras podem tecer estas invisíveis teias que me prendem ao teu nome, a ti, ao que de ti invento. 


No sítio mais fundo
do teu nome
fala o que não se pode dizer.

Que ninguém chame pelo teu nome,
que ninguém acorde
o teu nome que dorme.

Porque é o nome do homem
e o do menino,
o da vítima e o do assassino.

[A Eugénio de Andrade de Manuel António Pina in 'Aproximações a Eugénio de Andrade']

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Tommaso Vitali  - Chaconne

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05 setembro, 2016

Para que tu existas




Respiras? Existes? As palavras que dizes são tuas? O rosto que mostas é teu? Quem és tu por detrás de ti? 

Alguma vez mo dirás?

Sonhas com ilhas perdidas em mares azuis, escondes segredos, constróis histórias, ergues altares para os teus deuses, caminhas errante por um mundo só teu. Disso eu sei.

Mas nada mais. Posso até acreditar que és apenas uma sombra que fala com mortos e que do mundo dos vivos tudo desconhece. Posso até acreditar que és um corpo sem nervos, sem pele, um corpo em carne viva. Posso até mesmo acreditar que não respiras, ou até mesmo que não existes. Posso até temer que sejas apenas fruto da tua imaginação.


Mas soubesses tu o que eu daria para saber que existes, ah...soubesses tu.


Para que tu existas
com todos os teus nervos
como linhas de força
empunho a minha ferida
como se fosse um leme
Os segredos mais vivos
assomam-se a um rosto
onde sonham as ilhas
onde crescem as taças
dos deuses terrestres


[de António Ramos Rosa in Antologia Poética]

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A primeira fotografia foi feita em Cacilhas, a segunda no Ginjal

Clara Rockmore interpreta no teremim "Berceuse" de Tchaikovsky

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No caminho que percorri
que escolhi 
ou que me escolheram.
Pegadas, sulcos, rastos
restos
que a vassoura do tempo
vai apagando
mas que ainda trago colados em mim.
Marcas do que eu sou
do que fui
do que não fui
do que nunca gostei de ter sido.


[De Joaquim Castilho, em comentário abaixo]


04 setembro, 2016

E se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio





Em silêncio espero a tua visita. Há tanto tempo. Não peço, tão pouco mostro que sinto a tua falta. Sou assim. Posso até parecer despegada. E sou. Mas não de ti, de ti custa-me a despegar-me. Sinto a tua falta.

Vem. Esquece o que lá vai.

Podes aparecer-me aqui vindo do escuro rio que corre ali em baixo, podes aparecer-me ainda escorrendo, coberto de limos, trazendo o cheiro da maresia colado à pele, ou podes enviar antes uma longa carta, longa, em que me contes lembranças de ti, pensamentos soltos, os teus medos ou sonhos, e se ainda te lembras de mim, ou podes fazer-te anunciar através de música, ou podes bater à porta e vir devagar, sentar-te à minha beira e desenrolar livros, apontamentos, palavras tuas ou não, podes falar-me do que gostarias de me ensinar na secreta esperança que eu aprenda mais do que confesso, ou poderias com os teus dedos nervosos fechar os meus olhos e, para que oiça apenas com o coração, dizer-me poemas até que a noite dê lugar ao dia. 

Tudo estará bem para mim. Quero apenas ter notícias de ti, saber que, para ti, ainda existo, saber que, mesmo que apenas em pensamento, eu ainda sou a tua amada, a tua eterna e secreta amada.

É que, sabes, temo que, se não o fizeres, um dia me esqueça de ti, não consiga mais recordar-me do teu rosto, não consiga já que o meu corpo se acenda com a memória das tuas mãos e do que fazias com elas para me fazer vibrar, nem consiga sentir como a minha pele estremecia ao som ciciado da tua voz convidando-me a pecar.

Não te quero esquecer. Vem. Sinto tanto a tua falta. 



Há dias em que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia claro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio.


[in Fogo, Gastão Cruz]


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Fotografias feitas no Ginjal

Katica Illényi, no teremim, interpreta Once upon a time in the West de Ennio Morricone sob condução de István Silló com a Győr Philharmonic Orchestra

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04 julho, 2016

A solidão de um anjo cego abrindo pouco a pouco os olhos





Num lugar distante, perdidas na noite, umas mãos vagueiam entre palavras mudas, pálidas de solidão. Sombras e véus rasgados acariciam o seu rosto e é como se um vago murmúrio sussurrasse lamentos antigos.

Da gentileza desconhece os preceitos, dos gestos galantes ignora a doçura. Quase não fala, apenas escreve e, quando são suas as palavras, elas soam como afiadas lâminas, dolorosas agulhas, ferem, ferem as suas ariscas mãos. Cansados os olhos, cansado o corpo, cansadas as esgotadas mãos que não sabem da luz os afectos, da cor a cortesia, da aragem a carícia.

Memórias, tristezas, inquietações desenham-se sob os seus pés como caminhos na escuridão. Escombros, ruínas no passado, vazio no tempo que se aproxima com cruel lentidão -- assim a sua vida. Em vão, as suas mãos cegas tentam que outras mãos surjam de entre as trevas para agarrar as suas. Mas não sabe procurá-las, não sabe perceber quando alguém se aproxima. Encosta-se, então, à parede, sozinho, perdidas as mãos, perdido o olhar.

Contudo, não chora. Dos olhos, rentes às trevas, há muito que as lágrimas também se evadiram. Agora, deles, escorrem fios de mercúrio, gelados como o sopro de estrelas mortas.


Apagaram-se as luzes. Na memória
vibra a última sombra, a solidão
de um anjo cego abrindo pouco a pouco
os olhos. Desta noite
nascem todas as noites de quem fala
em silêncio e afoga
as suas dores no sangue incandescente
de uma estrela já morta, a cintilar
sob escuros escombros, entre sonhos
ainda por viver. Em cada alma
escorre um fio de mercúrio, essa lágrima
anunciando o paraíso, algures
no interior da treva.


[De Fernando Pinto Amaral in 'Às cegas']

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As fotografias foram feitas no Ginjal. 
A música é de Jocelyn Pook.

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26 março, 2016

Solitário no meu pequeno barco, canto no meio do mar da felicidade




Estás do outro lado do mundo, invisível, tão longe das minhas mãos cegas. Se fecho os olhos, vejo-te entre sombras, vagueando entre palavras, adivinhando músicas longínquas, tecendo fios perfeitos de sedas suavemente coloridas, frases límpidas, tão límpidas. Outras vezes, o teu olhar perde-se entre verdes, azuis, deleita-se com os caprichos das flores e, então, vejo-te guardando tesouros, com a minúcia dos antigos, cada coisa em seu cuidado compartimento, isto para um dia de luz, aquilo para um dia de névoa, isto para te contar um dia, aquilo para esconder de todos. Com a delicadeza dos generosos, afagas memórias, sonhos, sorrisos de um carinho tão distante.

Abro a janela e, na noite, adivinho as estrelas adormecidas, as nuvens em sonos aquietados, as tuas mãos pensando naquela que o teu coração chama, paradas, expectantes. São brancas e pensativas as tuas mãos. Apenas a respiração, agora, te prende à vida que os outros conhecem. O resto, todo tu, está nos esconderijos onde a tua vida se guardou.

Mas deixa que eu, que não te conheço, te diga: não penses com saudade naquela que o teu coração chama. Não penses. 

Eu conto-te. Ela vive entre o brilho das águas, sobre os ramos floridos das árvores, voa sem destino certo, perde-se entre os caminhos frescos de bosques que mais ninguém conhece, ela é outra e ninguém sabe quem é, ela é um reflexo, ninguém, uma mulher inventada. 

Respira de olhos abertos, respira. E olha as tuas mãos, levanta-as, deixa-as voar, abre a janela, sacode as asas, sai e voa. Procura um barco, deixa-te deslizar, vai com ele, olha os mil sóis, deseja a tua felicidade, encosta o ouvido à frescura da noite, escuta como ela te pede que sorrias. Sorri. Agora. Sorri. 

Estou a ver-te. Ainda não estás a sorrir. Sorri. Sorri para mim.

Assim está melhor. Gosto de te ver a sorrir. É bonito o teu sorriso.


O amado está dentro de ti e de mim
a árvore está escondida dentro da semente
Todos lutam    Ninguém chegou muito longe
Abandona a tua arrogância    Olha à tua volta

O céu azul prolonga-se pelo infinito
A diária sensação de fracasso esbate-se
Um milhão de sóis começa a brilhar
enquanto piso com firmeza este mundo

Ouço o som de uma campainha que ninguém agita
chove embora não haja nuvens no céu
Fluem rios de luz

Solitário no meu pequeno barco
canto
no meio do mar da felicidade

[in 'O nome daquele que não tem nome' de Kabir numa versão de Jorge Sousa Braga]


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A música é  Look at the world de John Rutter numa interpretação de The Cambridge Singers 

As fotografias foram feitas no Ginjal
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09 março, 2016

A oriente do teu sangue



Como dizer, anjo selvagem, que te quero longe de mim, que o incêndio que lavra no teu peito me enche de medo? 

Como dizer, anjo de negras asas, que a tua língua de homem perdido traça labirintos loucos na minha noite?

Como dizer, anjo terrível, que o sangue perverso que corre nas tuas veias me adoece, me envenena?
E como dizer que a noite macia que me envolve não basta para me proteger do teu canto tão acre, tão, tão perigoso?
E como dizer, anjo louco, que a tua insolência solta disparos de fogo que ateiam a minha intranquilidade?
Ah, como dizer, anjo sem nome, que mergulho no rio, me deixo levar pela aragem doce e azul, me afasto da costa segura, tudo, tudo, apenas para me proteger de ti, madrugador intranquilo que te confundes com as palavras loucas que atiras pelos ares?


como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fonte

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem

[Poema 2 de 'Pelas mãos e pelos olhos eu juro' de Alice Vieira in 'Dois corpos tombando na água]

25 fevereiro, 2016

Uma palavra, um grito, um deslizar manso sobre as águas





Há pouco, talvez umas oito da noite, olhei o céu e vi uma despudorada lua nua, descaradamente amarela. Iluminava o rio e ele, rendido, todo se desfazia em reflexos.

Depois distraí-me. Por vezes acontece-me isto, deixo que pequenas coisas me façam esquecer o que é verdadeiramente importante. 

Agora fui espreitar. Já não a via. Entristeci-me, pensei que a tinha perdido. Olhei em volta. Finalmente vi um rasto de luz incolor. Era ela, lá em cima, já de branco vestida, o rio de negro. Zangaram-se, pensei. Mas entre os amantes que muito se querem, os pequenos nadas são esquecidos e a ausência dilui-se, perdoa-se. Pensei: amanhã já estão outra vez na mesma, trocando sinais de amor, sorrisos, brilhos que só eles parecem ver. Tive vontade de os abraçar com o meu olhar e então pensei: como se abraça com o olhar? Fui buscar a máquina, foquei, olhei-a de perto. Fotografei-a. Branca, manchas, cinzas, crateras. Um luar pleno, carregado de notas de música e de poemas e, no entanto, o que há vem da cinza, vem do que talvez um dia tenha sido verde, azul, agora só pó.

Parece que à sua volta se ouve uma estranha música, acordes soltos, prolongados, vindo da origem dos tempos. E quem lá pousa, quase voa. E eu não sei se uma pessoa se pode perder no espaço, por sobre a lua, e ficar infinitamente solto, a voar sem destino, ouvindo indefinidos acordes, iluminado por uma luz transparente, macia como um leite muito doce.

Não sei o que pensar de tudo isto, nem do que vejo, nem do que sei, nem do que penso. E acho que não faz mal porque me parece que tudo existe para não ser compreendido. E penso que tenho que aprender a ver, a sentir, a aceitar, a gostar -- mesmo sem compreender.

Agora eu estou aqui na minha janela, iluminada pela noite e por luar reservado e branco, e não vejo nuvens, se as há estão envoltas em escuridão, e se prenunciam tempestades eu não sei, e se prenunciam sombras atravessando o coração dos que vivem na escuridão, eles já não estranham. Por isso, é como se não houvesse nuvens. A noite cega-me, cega-nos.

Lá em baixo, nos bares da beira do rio, as mulheres decotadas e ruidosas talvez estejam encostadas umas às outras ou dobradas sobre a mesa de homens disponíveis. Não devem pensar nas águas escuras que correm em silêncio, encorajadas pelos mistérios que o céu esconde. Quando amanhecer, devem sair em silêncio, cansadas, esquecidas da lua, e eu acredito que elas ainda não saibam que, nas noites de luar, o rio se deita enebriado de amor, ignorando os gemidos que elas soltam quando fingem o prazer, e ouve apenas o doce murmúrio que desce da sua amada longínqua, sons muito antigos, acordes luminosos como a alvura enamorada daquela que, de longe, o olha com saudade. Mas o rio não se importa que elas não saibam, que ninguém saiba: ele gosta mais assim, de a ter, à lua, só para si, escondida em si, vivendo em si, o seu brilho deslizando mansamente na corrente dos seus dias. Para sempre. Para sempre.



Movemo-nos entre as noites e as dunas que nos cercam,
espectros de outro tempo e de outra vida;
mas aquelas mulheres juntaram-se a um canto, silenciosas,
pois esperam de nós alguma coisa
que não sabemos o que é:
uma palavra, um grito, um deslizar manso
sobre as águas, ou o mero esplendor do nosso fim
iluminado pelo mais solene dos luares?
As nuvens, sim, as indiferentes nuvens
anunciam um cruel fulgor,
que nós a tempo não saberemos ver

['Ao luar' (Manet, Luar sobre o porto de Bboulogne) de Luís Filipe Castro Mendes in 'Outro Ulisses regressa a casa']

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(Fotografias feitas agora mesmo, enquanto ouvia Catrin Finch e Seckou Keita )

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21 dezembro, 2015

Ah, eu sei agora que é magia





Olhou-me nos olhos como se me inquirisse. Dócil, eu, aproximei-me, devagar. Continuou a olhar-me. Baixei-me, tentei perceber. Olhava-me como se me quisesse dominar, como se me quisesse fazer sentir que tinha que ser eu a ceder. E eu ali, em silêncio, disposta a todos os olhares.

Então desviou os olhos. Olhei-o bem de frente, eu já quase de joelhos, que me olhasse, bchhh, bchhh, bichinho, bchhh, bchhhh, bichinho lindo... Nada. Olha, olha para mim, bchhh, olha, bichinho, bchhhh. Nada.

Não insisti. Tenho o meu orgulho. Não queres, não queiras. 

Mais à frente ainda pensei voltar-me para trás, ver se me seguia, se queria, afinal, a minha companhia. Mas não o fiz. Orgulho, esse grande inimigo dos acasos. Segui o meu caminho.

Dia de gaivotas pensando na vida, contemplando o mundo, dia de gatos sob as árvores, trepando aos muros, deslizando entre sombras. Dia de veleiros brancos, vermelhos, deslizando no azul, entre árvores. Dia de deslumbramentos.


E eu vou caminhando. A terra está macia, a relva está verde, o rio corre azul, o céu abre-se para receber aqueles que querem sentir a serenidade das nuvens que correm devagar ou dos amantes que se abraçam rente às águas, abençoados por quem passa.

Não sei ainda onde me levam os meus passos. Não sei como vim aqui parar. Não sou daqui. Que raízes são estas que se estendem até ao mar? Que asas são estas que se levantam para me levar a voar? Que amor é este que sinto por tudo? 
Pelas palavras, pelas águas, pelos céus, pelos pássaros, pelos barcos, pelos gatos, pelas paredes, pelos olhares recordados, pelos sorrisos imaginados, por quem o meu coração bate, por quem o meu coração aconchega. 
Um amor assim não tem explicação. Parece ilimitado, parece intemporal. E é inocente, alegre, livre. 

E eu caminho, sem explicações, como se fosse uma gata, uma gata deslizando sobre o azul, como se me nascessem asas, como se pudesse ir para o alto, para lá de onde se vêem as belas cidades, os pequenos homens, para lá onde as angústias perdem o motivo, onde os medos são injustificados, lá onde as saudades aumentam, aumentam tanto, lá onde me sinto tão longe, tão perto, tão livre, tão ilimitada, tão tua.

Não sei explicar, não sei mesmo. Mas dizem-me que é  magia, que é imagiação a explicação -- e eu acredito porque é bom acreditar no que não tem explicação.


Ah, eu sei agora que é magia,
que é imagiação a explicação
disto de estar aqui e não ali,
de vir aqui parar,
de vir aqui andar
e ter um chão onde os meus passos
de gazela insegura
se aventuram no escuro.
Eu sei agora algumas coisas
que explicam o que nada poderia explicar,
e o que não sei ainda
irei imaginá-lo numa não sei que paz
que é imagiação.

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Fiz as fotografias este fim-de-semana no Ginjal.
O poema é 'Ela', poema 33, de Um Teatro às Escuras de Pedro Tamen.
Barenboim interpreta de Bach: Goldberg Variations - Aria
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16 dezembro, 2015

Assim dobrados inventamos novas formas de amar -- o sangue rejubila.




Que a música toque baixinho. Que seja ela a toada que nos há-de embalar quando nos tivermos nos braços. Mas, para já, debruça-te sobre mim. Aproxima-te até sentires o calor da minha pele. Vem devagar, vem, como se descobrisses o corpo de uma primeira mulher. Aprende-me como se nunca antes o teu corpo se tivesse acercado de um corpo de mulher. Vem, olha para mim. Vê como eu te olho a ti. Escuta como os meus lábios, quase em silêncio, desenham segredos, insinuam sonhos, vê como te cobrem de palavras invisíveis, sons inventados, flores quase transparentes de tão quentes. Dá-me a tua mão. Deixa que eu a sinta, deixa que eu a guie pelo meu rosto, deixa que eu a guie pelos meus braços nus, deixa que eu a guie pelo meu colo, deixa que eu esqueça o meu pudor. E não olhes, então, os meus olhos. Talvez se tenham fechado para melhor sentir a tua pele.

Debruça-te. Que o teu corpo se dobre sobre o meu, que os teus lábios aflorem o meu ouvido, que eu ouça palavras lentas, quentes como as flores rubras de sangue, que os meus lábios se abram para os teus, que o sol nos una, que a luz nos envolva que outros lençóis não são precisos, que o teu amor escave o meu corpo e o meu o teu, que pelos tempos inteiros nos abracemos, sempre tão longe, sempre tão perto, tão dentro de mim e eu de ti.


Olho para o meu écran
como se fosse um céu estrelado.
Coloco nele a minha mão esquerda
para que eu possa ver duas pulseiras
semelhantes. A tua e a que me ofereceste.
Depois dou um beijo na mão que pinta
e roço ao de leve a tua face direita.
Comovido, abandono o trabalho
(amar-te é um ofício de alta voltagem)
e vou para a rua; vou colher
os restos de sol que me deixaste
Amar-te, beber-te, invocar a dor
é um raio de sol escuro
que entra na tua pele. Que
no meu corpo
entra. Cavamos um no outro.
Na lama que foi seca.
Assim dobrados inventamos
novas formas de amar -- o sangue
rejubila.

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As fotografias foram feitas no Ginjal

Os poemas são de Casimiro de Brito in 'Amar a vida inteira'  (respectivamente o 92 e o 43)

Renée Fleming interpreta de Richard Strauss: Four Last Songs - Beim Schlafengehen

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19 novembro, 2015

Ela é uma coleccionadora de homens



Diz-me devagar poemas que eu não conheço. Diz-me, quase em silêncio, poemas que falam de outras mulheres, de outras paragens. Diz-me, devagar, palavras que eu quase não ouço, diz-me, fala-me de céus, de paisagens, de mares, de espelhos, diz-me. 

Vem, chega-te a mim, diz-me rimas rimadas, rimas brancas, fala-me de amores, tristezas, diz-me de perdas, de recomeços. Diz-me.

Encosta-te à parede, encosta-te a uma árvore, à sombra de um veleiro, ou encosta-te a mim. Gosto de te ver assim enquanto falas, o corpo apoiado para que um sopro não te faça vacilar. E conta-me de caravelas, de guerras, de tempos perdidos no tempo, de tecedeiras de telas infinitas, de loucuras, de corações despedaçados, de paredes caiadas, banhadas de luz. Conta-me de lágrimas, de abraços, de mãos que se encontram, de mãos que temem perder-se.

E não te espantes que eu nada diga, que eu apenas sorria e pense que não existes. Dir-te-ei talvez que não é possível que assim apareças junto a mim, dizendo-me poemas inesperados, palavras trazidas da noite. Não queiras que eu te fale de palavras que beijam, de palavras que atravessam os longes e os acasos felizes. Não. Não consigo. Fala tu, apenas. Fala-me da beira-mar, fala-me do mar, do vento, do que quiseres. Fala-me devagar para que as tuas palavras fiquem gravadas na minha pele, cravadas no meu coração.

Mas não me olhes nos olhos. E não me perguntes se és o único. Não peças que te confesse que do outro lado do espelho está outro, igual a ti, que diz o que tu dizes, que quer o que tu queres, que sonha os teus sonhos. Não me perguntes. Não digas nada. Conta-me apenas, em silêncio, com palavras transparentes, que me queres. Estende o teu amor em palavras pelo chão, pelo céu, pelas águas azuis do rio, pela espuma do mar, e deixa que a luz que delas se desprende me guiem neste labirinto em que nos perdemos.




Ela é uma coleccionadora de homens.

Tão eficaz como o colector de impostos e o seu laço
a perseguir o gado de qualquer pobre lavrador.
Prendeu-me com o olhar,
anestesiou-me com o seu perfume,
por fim enlaçou-me com os seus longos e escuros cabelos.

Assim me marcou ela
com o seu ferrete de fogo


[Frases delicadas, II, in Poemas de amor do antigo Egipto, tradução de Hélder Moura Pereira]

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As fotografias foram feitas no Ginjal
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05 novembro, 2015

Com as letras do teu nome escrevo sal e sol, procuro o sul - azul é a bandeira do teu nome.




Não digo o teu nome. É um segredo só meu. Mas ele vive, letra a letra, impresso no meu coração. É um nome que quase escondo de mim, que esqueço, que soletro em silêncio. Soletro só para mim, sem saber porquê. Mas fico-me pela primeira letra, logo as outras abafadas pelas lonjuras da noite, aturdidas pela luz branca da lua lá tão distante.

O teu nome chega-me como num sonho, nas asas brancas de um grande pássaro que vem do lado de lá do rio, que traz o sal das praias do sul, o sol da praça luminosa onde me perco pensando em ti.

O teu nome mistura-se com o meu, unidos, apaixonados, abraçados, abraçados, o teu nome levanta o meu no ar, o teu nome faz o meu voar. 

O teu nome tem transparências e cores dentro, tem palavras muito leves, feitas de um ar muito puro, tem cores suaves, notas de música, asas de anjos brancos, de borboletas azuis, de flores cor de rosa, desenhos de amor, pétalas, saudades, acordes feitos de harmonia e luz.

O teu nome tem mãos cheias de paz, tem um olhar que me faz sorrir, tem uma ternura que me beija. O teu nome é meu, vive em mim, dorme comigo, habita os meus sonhos, debruça-se sobre mim, afasta o cabelo do meu rosto, acaricia o meu despertar, deixa doces alvoradas nas minhas manhãs. Traz serenidade às minhas noites.

O teu nome vive guardado dentro de mim. 


Muitos anos depois foi o teu nome
que veio ter comigo.
A casa  está agora cheia de palavras
onde o teu nome ecoa. Falam de ti
os livros, os quadros nas paredes,
os pequenos ruídos da noite.

O teu nome é um pássaro, um gato
que ronrona, um comboio
que atravessa os campos da memória.
Está em toda a parte o teu nome.
Paris, Zurique, Amesterdão, Madrid
são cidades da linha to teu nome.

Eu chamo-me o teu nome, chama
onde me aqueço e esqueço
tudo o que estava antes de ti.
Com as letras do teu nome escrevo
sal e sol, procuro o sul, azul
é a bandeira do teu nome.

No teu nome viajo, no teu nome regresso,
sou rio, mar, deserto,
um cravo de Abril, uma canção de Brel,
sou tudo isso às portas do teu nome.

['O teu nome' de Manuel Alberto Valente in 'poesia reunida - o pouco que sobrou de quase nada']

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As fotografias foram feitas no Ginjal

Jacques Brel interpreta Quand on n'a que l'amour

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03 novembro, 2015

Dum grito de loucura, de toda a matéria escura sufocada e contraída nasce o grito claro




De um sonho meu nasceu um dia um misterioso personagem. Inquieto, quieto, insubmisso, meigo, desatento, atento, amante de palavras, suave, forte, amante da poesia mais do que eu, os poemas rolando felizes na sua boca com a intimidade dos segredos muito bem escondidos, segredos revelados a quem conhece da cumplicidade o afago, a ternura. Assim o sonhei. Assim o descrevi em histórias, em palavras inventadas.

De onde nasceu essa pessoa não saberei dizer, talvez de labirintos longínquos, de escadas infinitas, de grutas loucas, roucas, de gritos insanos, de sombras frescas, de recantos acolhedores, de memórias perdidas, de devaneios inocentes, de promessas dissonantes. Sabia que essa pessoa não existia senão dentro da minha imaginação. Sabia. 

Até que um dia ela saíu das minhas mãos, materializou-se. As suas palavras passaram a ter som, o olhar sorriso, as mãos movimento, o calor corpo. Essa pessoa existe. Fala com poemas, traz luz às palavras, cor às imagens, raízes às recordações, asas ao desejo. Visita-me, dança comigo, abraça-me, sorri comigo, pega-me nas mãos, levanta-me no ar, deita-me no seu peito, beija-me devagar, com urgência. E eu fecho os olhos e vejo-o tão bem, tão bem, sinto-o, cheiro-o, está aqui junto a mim, ouço a sua respiração, sinto o calor do seu corpo, a macieza das suas mãos atentas, íntimas.

E já não sei se é sonho, se é despertar, se é gente, se é loucura, se é uma esperança insubmissa. E o que falo em segredo dentro de mim talvez seja já um grito, um grito azul, um grito claro que quer rasgar o futuro.


De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro

['O grito claro' de António Ramos Rosa in Antologia Poética]

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As fotografias foram feitas no Ginjal.

Renée Fleming interpreta Après un rêve de Gabriel Faurè acompanhada de Jean-Yves Thibaudet ao piano

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27 outubro, 2015

Medo de a carícia despertar insuspeitos infernos





Devagar caminho sobre a água. Hesito. Tenho medo de não saber prosseguir. Perigosos são os caminhos das mulheres como eu. Arrisco, arrisco, atravesso abismos, desafio os deuses. Mas depois temo. Passo após passo, devagar, devagar. Talvez me deixe mergulhar. 

Abeiras-te devagar. Vens com o teu olhar. Em silêncio. Mostras-me o assombro das mãos. De longe foram estas as palavras que me chegaram: olho assombrada. Não percebo. Procuro. E depois chego a castelos abandonadas, galeras afundadas, lanças perdidas. E agora, enquanto caminho, receio que venhas de novo com o desencanto de quem viu fugir o seu destino.

Mas eis que te vejo sorrir. Mostras-me as tuas mãos. Dizes-me que não estão vazias, que as trazes cheias de sonhos. E eu abeiro-me de ti. Nossos serão, pois, todos os sonhos.

Dizes-me que não tenha medo, que não despertaremos infernos, que não incendiaremos almas alheias. Acredito. 

Fecho os olhos, deixo que me retires dos caminhos incertos das águas. Deixo que me seques, que me embales. Deixo que me faças sentir humana, frágil, mulher. Deixo que me beijes, deixo que incendeies a minha força. Deixo que as tuas carícias desfaçam a minha vontade, deixo que me tomes durante todos os instantes, para sempre, naquela breve eternidade em que tudo é tão pouco. E olho assombrada as tuas mãos cheias de luz.


Medo do amor
quando tudo é fome.

E onde tudo é tão pouco,
medo de a carícia
despertar insuspeitos infernos.

Medo de sermos
só eu e tu
a humanidade.

E morrermos de tanta eternidade.


['Medos' de Mia Couto in 'tradutor de chuvas']


[Com referência a 'Perdi os meus fantásticos castelos' de Florbela Espanca e a 'Apesar das ruínas' de Sophia]
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As fotografias mostram paredes pintadas no Ginjal

De Antonin Dvorak: Song to the Moon (de Rusalka) com Anna Netrebko 
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26 outubro, 2015

Dizer um nome é sempre uma heresia





Olho as minhas mãos sobre o teclado. Deslizam, independentes da minha vontade. Escolhem letras sem que eu as guie. Neste momento não existo, não tenho vontade, não tenho nome.

Os dedos procuram dizer o que eu não saberia nomear: porque escrevo, porque aqui estou, por quem quero ser lida. Não sei. Talvez as minhas mãos velozes o saibam, elas que soltam palavras no ar como quem solta pássaros que procuram o seu destino. 

Chegarão talvez intactas as minhas palavras e vocês que as recebem lê-las-ão sem espanto, conhecê-las-ão como minhas, palavras nuas, palavras sem dono. Saberão que foi uma mulher que, numa noite escura, de frio e chuva pesada, se desprendeu delas, uma mulher sem rosto, sem nome.

Tu que aí estás no meio de uma multidão imensa, tu que eu não conheço, de quem nada quero saber, de quem quero estar distante - tu também saberás que é para ti que escrevo, tu também invisível, tu uma presença silenciosa, sem nome, sem rasto, sem que nem um fio de luz vosso chegue até mim.

Poderia, eu sei, poderia brincar, seduzir só pelo prazer da conquista, pelo prazer do sorriso velado, poderia até dizer-te que quero que me espreites o decote, me levantes a saia, me digas segredos, me sussurres poemas, me surpreendas com olhares indecentes. Mas não digo, não é verdade.

Poderia, pelo menos, confessar-te que te quero a ouvir dizer o meu nome em surdina, o meu nome rolando gostoso na tua boca, sílaba a sílaba. Mas não digo, não é verdade.

Poderia confessar que quero dizer o teu nome, o teu nome escondido, dizer o teu nome, ciciar ao ouvido o teu nome, dizê-lo como quem faz um carinho, uma suave e lenta carícia, o teu nome beijado pelos meus lábios. Mas não digo, não é verdade.

Não. Sou apenas um vulto secreto, uma mulher invisível que atravessa a densa noite de chuva, uma mulher sem nome, que escreve para pessoas sem nome. 

Sei que me compreendes: dizer o teu nome, dizeres o meu nome - que heresia seria; dizer um nome é sempre uma heresia, sabes bem. Não. Não o faremos.


Não direi o teu nome para
nós evidente pois estás no centro
da multidão que fomos quando a outros
disputámos o óxido do ouro

Não direi o teu nome como outrora pedi
que não dissesse o meu nome quem tinha
o poder de o dizer em pleno dia:
dizer um nome é sempre uma heresia


['Dizer um nome' de Gastão Cruz in Óxido]
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As fotografias mostram paredes degradadas e graffitadas no Ginjal.
A música é uma canção tradicional russa: Sinos nocturnos

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16 outubro, 2015

Há um ponto sem chão nem ponte em que só é preciso abrir os braços e voar.






Com um olhar serás capaz de me tirar o chão. Aprende isso. Com um olhar e um sorriso serás capaz de me tirar o controlo, o raciocínio, tirar-me de mim, com um olhar serás capaz de me deixar disponível para ti. Aprende isso para que percebas que não o deves fazer.

Estou a avisar-te. Prolonga o olhar, prolonga, deixa-te estar assim, parado, a olhar para mim e ver-me-ás sem força, sem armas, sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. Olha para mim dessa forma, olha, e sentirás que estás a despir-me, a deixar-me vulnerável, à tua mercê. Por isso, não o faças. O risco é maior do que pensas. Aviso-te: não o faças.

Olha-me, olha-me assim e depois não te queixes se um dia eu te cair nos braços. Olha-me, olha-me. Olha-me assim, de longe, um sorriso clandestino, um sorriso de quem se aventura por terrenos proibidos - sabes que são proibidos, sabes, sabes que sim. 

Olha-me assim se me queres descobrir. Olha-me, sente-me, toca-me a pele, a alma. Olha-me. Olha-me como se estivesses de olhos fechados, apenas a imaginar-me. Olha-me, olha-me nua nos teus braços, as pontes abolidas. Mas depois não te queixes. Avisei-te. Olha-me assim, despudorado, olha-me assim e depois não te admires quando me vires a voar. A voar, a voar. A voar para me aproximar mais e mais e mais de ti. Olha-me, olha-me, mas não te admires quando me sentires alojada no teu coração.



Há um tempo para estar só
há um tempo para estar nu
há um tempo que falta para ser
o bastante uma coisa e outra
há uma ponte em direcção ao tu

que é necessário atravessar e que
é necessário, coragem, minar
e há um ponto sem chão
nem ponte em que só é preciso
abrir os braços e voar.

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O poema pertence a O Quarto Azul e outros poemas de Rui Caeiro

Viajei ao som dos coros da Igreja Ortodoxa Russa

As fotografias foram feitas no Ginjal
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14 outubro, 2015

Tão linda que só espalha sofrimento, tão cheia de pudor que vive nua





Há dias assim, sem lua, o céu escuro, a noite cansada, as palavras que fogem para lugares inalcansáveis. Estás aí, eu sei, estás aí e talvez esperes por mim. Estás aí e eu sinto-te, perto, esperando um sinal, uma palavra perdida, escondida, invisível. Mas o céu emudeceu, o rio está envolto em negrume, as minhas mãos deslizam pelas palavras que voam com uma melancolia nova. Voam de mim, as palavras. Voam, sabes?

Abro a janela, tento que a aragem húmida me traga uma nota de música, um choro, um riso, qualquer coisa. Mas não, é silêncio o que vejo desta janela escura, um silêncio pesado. 

Olho a ausência à minha frente, o escuro, e, porque tenho vontade de voar, imagino que chegas até mim e, em segredo, me dizes:

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Fecho os olhos, leio as sombras que escondes no meio da luz, recolho flores, acaricio as cores que espalhas no espaço infinito. Fecho os olhos e penso em ti. Fecho os olhos, e tu tão longe, tão longe, tão longe. Existes? Existes? Estás aí?

Sonharás, às vezes, comigo, inventarás abraços nunca dados, beijos proibidos, inventados, momentos loucos que nunca foram nossos? Dirás, como se dissesses a verdade, memórias que nunca nos pertenceram? Assim:

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Lamentarás um dia ter sonhado comigo? Ou não? Tu que me conheces tão bem como se me conhecesses, dirás que sou como a lua, longínqua, nua? E que só espalho sofrimento? Dirás isso, acusando-me? Ou desculpando-me? Dizes isso só para ti? Dizes, como num lamento:

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

Ah, não me respondas. Deixa-te estar em silêncio, preso à sombra do silêncio. Sabes, nada posso fazer. Gostava de, para ti ser uma estrela, gostava de encher de luz a tua vida, gostava de te transportar sobre flores e versos. Mas nada posso fazer, sou apenas uma mulher que vive nua, uma mulher feita de música, luar e sentimento.


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O título deste post e o excerto final pertence ao poema pertencem ao Soneto do Corifeu de Vinicius de Moraes que é lido por Rafael Mendes. As outras duas estrofes pertencem ao Soneto da Devoção também de Vinicius.

As fotografias foram feitas, este fim de semana, no Ginjal.
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02 outubro, 2015

Um dia prometeste deixar no estuário da nossa cama






Não pensámos, não, que fosse eterno. Por vezes fingíamos acreditar mas ríamo-nos logo a seguir para que ficasse claro que sabíamos que um dia terminaria. O sabermos que era efémero dava mais valor ao que tínhamos. E, enquanto o tínhamos, sentíamos que era eterno mas não o dizíamos, não queríamos que o nosso amor se tornasse risível. 
Tecias sedas com os meus cabelos entre as tuas mãos e dizias vou tecer um manto invisível para nos cobrirmos quando dormirmos na beira do rio e eu deixava que o calor das tuas mãos, desfiando-me lentamente, me transportasse leito fora como se já pelo rio o meu corpo navegasse, junto ao teu, junto ao teu. 
Tanto que eu gostava, na cama, de sentir a pele do teu corpo junto à pele do meu corpo disponível, teu, teu. 
As tuas mãos percorriam os contornos do meu corpo, tão macio, dizias tu, e eu gostava de te ouvir, segredando-me convites indecentes ao ouvido e isso era um segredo teu, só teu, só teu. 
As minhas pernas enleavam-se ainda mais nas tuas, e eu deixava que o teu corpo respirasse sobre o meu, navio suave deslizando por um rio vibrante, água e fogo, flores e vento, pássaros e sonhos, amor meu, amor meu.
Lembras-te? 

Lembras-te dos nomes que usavas para dizer o meu nome? Dos nomes que usavas para dizer o teu amor? Dos nomes que usavas para dizer o teu desejo, o meu desejo? Lembras-te?

Lembras-te de como me abraçavas, a tua boca escondida pelo meu cabelo, e tu, indecoroso amor meu, dizendo maldades, inquietando-me? E do rio, lá em baixo, que não sabia refrescar o calor do meu corpo, lembras-te?

E depois um dia foste-te. Não te despediste. 

Nunca mais te vi. Nada sei de ti. Nem sei se ainda sei o teu nome. Nem sei se ainda sei o meu nome. Nem sei se ainda existo. Sem ti, nem sei se alguma vez existi.

Fecho os olhos e tento recordar-me do nome que dizias quando dizias o meu nome. Mas o que ouço é apenas uma voz branca, sem palavras. Uma voz vazia, uma voz vazia desfiando memórias sem olhos, perdidas na cama que era nossa e que hoje está vazia.

Meu amor que te amo tanto, não voltes para mim, deixa-te estar no recanto mais profundo do meu sangue, lá onde não poderás voltar para ti. Amor meu, amor meu.




que foi que    de repente     eu disse
para que começasses a dar outros nomes ao que
pensávamos ser eterno    e habitar no
mais profundo recanto do nosso sangue

ouve-me   ouve-me   e dá depois o
nome que quiseres às mãos que um dia
prometeste deixar no estuário
da nossa cama

onde hoje apenas
se desenha o côncavo lugar do que
ardilosamente roubaste na partida


[de Alice Vieira in Os armários da noite]

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Yiruma interpreta Dream

As fotografias foram feitas no Ginjal

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22 setembro, 2015

Escuta homem que vens






Escuta homem que vens. Não sabes, porque não podes saber, porque eu não te disse, porque nunca te direi, mas sabe, homem que vens, que tenho ainda nas minhas mãos o cheiro que inventei para as tuas, e nos meus olhos o teu olhar que me quer olhar com infinita doçura e nos meus lábios o sorriso que um dia sonhaste ver e o sabor da tua pele que não saboreei.

Escondo-me de ti, de mim, dos sonhos, das asas, da luz, dos ventos, dos segredos, de tudo. Escondo-me, enrolo-me, encolho-me dos recantos, calo-me, esqueço-me. Num buraco escuro, no recesso da raiz de uma árvore esquecida, num desvão de uma escada clandestina, na intimidade das folhas de um livro que tacteaste, por aí vagueio eu, bicho com medo, invisível, quase perigoso. Não me encontrarás. Mesmo que me encontres, não serei eu.

Sou uma mulher selvagem, homem que vens, sou uma mulher sem piedade, sem remorsos, uma mulher danada que esquece quem a ama, que ignora lamentos e finge não ver as palavras que desenhas para que os meus olhos se lembrem de ti, uma mulher que apaga os rasgos que lhe abriste na  pele, no coração.

Os lençóis conservarão talvez as formas que nunca lá deixaste e, se eu encostar o ouvido ao fundo do teu coração que sinto bater aqui junto ao meu, sentirei a tua respiração gentil e poderia até adivinhar como é a pequena morte que conhecerias se visitasses o meu corpo. Sinto-te aí, sinto-te, ouço a tua respiração, vejo os teus olhos, sinto-te, sinto-te. A tua pele, o teu corpo - sinto, sinto. O calor do teu corpo, o cheiro do teu hálito. Aqui, junto a mim. Sinto.

Mas eu sou uma mulher impiedosa, danada, uma mulher que vive no fundo do mar e desconhece a brandura das estepes, que desconhece os concâvos do macio das tuas mãos, a curva branda do teu ombro que me aguarda. Desconheço-te, ignoro-te, tapo a recordação de ti. Faço-me de mil silêncios, fundo-me com as paredes, refugio-me onde não me vejas, não me lembres, não me queiras. E esqueço-te, ignoro-te. Vives no fundo mais esquecido de mim. Os meus uivos não chegam até ao lugar escuro onde te escondi.

Podes soltar palavras no ar, semear pássaros pelos ventos, trepar nu aos telhados, descer ao fundo do mar, amar-me com a carne, sem virtude, ser gato sem dono, cardume de peixes, raiz ou flor. Podes. Mas de mim, mulher impiedosa, mulher selvagem, de braços vegetais como ramos largos imersos nas águas, de asas aflitas como remos querendo fazer-se ao mar, de mim, mulher sem nome, nada poderás ter. 

Talvez apenas cânticos, lamentos, murmúrios, gemidos, soluços, lágrimas, risos, gritos, abraços infinitos, beijos inventados, palavras perfumadas como mel, coisas que de nada valem, que se perdem no ar, no tempo, nos silêncios tristes que habitam o meu peito.

Escuta homem que vens. Não queiras esta mulher selvagem.




Os lençóis conservaram
as formas dos cardumes dizem
que se encostares o ouvido ao fundo
terás a cadência vegetal das mãos.
Que uma estepe se abre
côncava
de artes lentas nesse lugar
de morte certa.

Escuta homem que vens -
os remos à solta fazem parte
da biologia das águas.



['Cântico das abundâncias' de Catarina Nunes de Almeida in Bailias]

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Chung Kyung-Wha interpreta o Concerto para Violino (Mov.2) de Antonín Dvořák

As fotografias foram feitas no Ginjal durante o último fim de semana

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01 setembro, 2015

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, a essa hora dos mágicos cansaços, quando a noite de manso se avizinha, e me prendesses toda nos teus braços


A sul perdem-se-me os pensamentos: voam nas asas das gaivotas que daqui partem desalmadas, livres, sem raízes, procurando o fim dos tempos, o azul mais azul, o mar sem fim para onde fogem as almas sem rumo, sem dono, sem destino.

Descanso de sonhos, de mil lutas, de luzes que cegam, de asas que voam deixando o corpo para trás, descanso de abraços sonhados, de poemas dedicados, de beijos inventados, descanso de palavras desatinadas, de palavras aladas. E de mil trabalhos, de um tempo que corre, que escorre, que se esvai. descanso de não ter janelas, de não ter um ar com cheiro a relva ou a laranjeiras, de não pisar a terra, de não caminhar todos os dias sobre as águas. E de não ter borboletas e pássaros voando junto a mim, de não ter flores a nascer-me do cabelo nem risos a sair-me do coração como músicas de crianças.

Mas não descanso de quem me ama, de quem vive guardado no meu coração, de quem me deseja e que me tem debaixo da sua pele, dos olhares que me olham com ternura e volúpia, das mãos que me procuram, das palavras que me são ditas com descarado amor, de tudo, de tudo, que nunca poderei soltar no ar nem deixar ir nas asas das gaivotas perdidas.

A sul eu não me perco de ti, a sul eu guardo-me para ti, meu amor. 

E, agora que tombam sobre nós estes mágicos cansaços e que a noite se avizinha, prende-me nos teus braços, amor, aperta-me nos teus quentes abraços e deixa que o azul destes mares do sul nos embale, amor, deixa, deixa. E fecha os olhos, amor, e faz-me sonhar.






Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


['Se tu viesses ver-me de Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"]

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Pedro Abrunhosa interpreta Eu não sei quem te perdeu

As fotografias foram feitas em Lagos 

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31 agosto, 2015

Para ti serei todos os bichos da água






Não sei se existes. Não sei se te inventei. Não sei se existo para ti. Mas sei que me olhas como se me tivesses inventado ou como se quisesses conhecer o fruto da tua imaginação. E eu olho-te, ah olho-te e não sei porque deixo que me olhes assim, não sei se quero que me desvendes, se quero apenas imaginar-te navegando dentro de mim.

Quem és?

A quem pertence esse olhar que me olha, que me olha sem parar, que me procura, que me prende, que se prende a mim? Que olhos são esses, umas vezes sombrios, outras vezes luz, plena luz e riso? Que palavras são essas que me procuram, que me fazem desvendar-me? Que palavras são essas que me trazem poemas, cânticos, histórias? De onde viestes? Como chegaste até mim?

Ah que eu não sei quem tu és mas mal consigo viver sem ti. Conta-me histórias, conta-me, embala-me com o teu olhar, com o teu riso, com o som da tua voz, ah, traz-me o calor do teu corpo, o amor das tuas mãos.

E, se tiver que me justificar para que permaneças assim, junto a mim, embalando-me sobre as ondas de um mar que é só nosso, dir-te-ei que sou bicho da água e que tu és marinheiro, veleiro, âncora, vela, luz, pássaro, mar, amor meu. 

Não saias nunca do meu coração, ah não saias amor meu que não sei quem és.




Para ti serei
todos os bichos da água
até dares às costas
o teu nome de âncora
a estrela embaciada para os dias seguintes
e um rosto trágico de marinheiro
pedindo menos mar

[ Poema de Catarina Nunes de Almeida in Bailias]
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Quarteto de Cordas Nº 2, Nocturno, de Alexander Borodin

Interpretação de Borodin Quartet
Rostislav Dubinsky e Yaroslav Alexandrov, violinos; Dmitry Shebalin, viola; Valentin Berlinsky, cello

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30 maio, 2015

O sempre é o pior dos nuncas








O veleiro afasta-se em direcção ao horizonte. Mais perto do casario, um outro veleiro, mais pequeno, branco, menineiro, parece percorrer um trilho de luz, parece querer ficar onde ficam os veleiros que gostam de habitar os corações dos seres amados.

O céu tem aquele tom dourado dos fins de dia quando o calor preenche o ar. Uma paz suave percorre a minha pele, entra devagar no meu coração. O tempo passa, a vida avança. Uns ficam, outros vão. A distância entre o que fica e o que vai um dia já não será distância, será ausência, esquecimento. O veleiro desliza e o silêncio de um fim de dia assim não é o prenúncio de saudade, é, sim, um adeus.

O azul do rio começa a adensar-se, começa a incorporar a noite, e a noite trará a solidão boa que acompanha os pássaros recolhidos, os gatos vadios, os amantes perdidos, as vozes silenciadas. O azul escurecerá ainda mais, as águas correrão calando murmúrios, afogando mágoas efémeras e segredos inúteis, lavando as almas dos espíritos que habitam as ruínas. 

Até que o veleiro desaparece, afasta-se das casas, afasta-se do pequeno veleiro branco. Terá passado para o lado de lá do horizonte, e nunca mais será visto cruzando este rio tão amado.

Depois o ouro recolhe ao coração das gaivotas livres e das mulheres sonhadoras, o céu escurece, a noite tomba devagar -- vem de longe, vem de trás das serras, e, aos poucos, abate-se sobre as casas, sobre as águas. A paz é, então, uma carícia, uma companhia amiga, e traz palavras envoltas em memórias boas, em devaneios felizes, em fragmentos inocentes, em pequenos nadas, em sorrisos inventados.

Fecho os olhos, deixo que o sono me envolva. O veleiro estará já muito longe. Até sempre. 




Ao partir,
disseram-me: voltarás sempre.

Parecia um consolo.

Era uma condenação.

Odeio o sempre.

Nos lugares
da vida carecidos,
o sempre é o pior dos nuncas.



['A Partida' de Mia Couta in 'vagas e lumes']

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Diana Krall interpreta Cry me a river e as fotografias foram feitas ontem ao fim do dia, rente ao Tejo e da janela desta sala

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24 março, 2015

Talvez seja apenas uma confidência


São instantes mas eu queria que fossem horas. E se são horas eu queria que fossem dias. E os dias somam-se aos dias e já são meses. E em cada instante desenhamos confidências, segredos inocentes, uma verdade tão nossa que parece ter nascido connosco, um pecado original que transportávamos sem o saber. Mas não é pecado, não, parece uma bênção, uma magia.

Afasto-me por vezes, quero ver as palavras de longe, quero ver se brilham como brilham quando em silêncio nos enunciamos secretas descobertas, memórias partilhadas, um registo de uma comunhão que parece imaginada.

E eu quero fechar a minha mão na tua para que feches nelas o nosso segredo, para que as palavras não voem, para que não fiquemos desamparados, sem as nossas asas que são comuns, sem os nossos sonhos que são os mesmos.

Fecha as tuas mãos nas minhas, envolve-me com um abraço, não deixes que os instantes se vão, prende as tuas palavras às minhas, e deixa-te ficar, sereno e alegre, olhando os meus olhos ou os meus sonhos. Guarda bem os nossos segredos. Nas nossas mãos. Meu querido.








Talvez seja apenas uma confidência. Sabemos
que cada vez mais é de nós que essas palavras
se afastam e assim se compreende melhor o sentido
que têm. Depois havemos de esquecê-las, para que se tornem
iguais a um segredo e se possa finalmente dizer
como tudo já cabe noutras mãos tranquilas e abertas.


[de Fernando Guimarães in Os caminhos habitados]




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Hayley Westenra interpreta Bachianas Brasileiras No. 5, Aria,  Heitor Villa-Lobos

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As fotografias foram feitas no Ginjal

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